sábado, 14 de outubro de 2017

SENTIMENTOS

Gosto de falar dos meus sentimentos. Quando falo dos meus sentimentos, desnudo minhas intensões, rasgo o véu da minha timidez e me exponho completamente. Exponho meus segredos, minhas indecisões e minha intimidade, como se eu fosse me revirar do avesso. Falar deles me deixa completamente em fase de expansão. Revelo até a alma, que transmuta em ascensão.

Quando falo dos meus sentimentos, eles se revelam por si só como se fossem as noites e seus mistérios irrevelados. Quando falo deles, dispo até minha última intensão. Bebo até a última gota deste momento intencional. Meus sentimentos são como aves libertas. Eles voam, voam, voam pelos céus primaveris e aterrissam nas noites invernais. 

São flores, arco-íris e borboletas; perfumados, coloridos e leves. Também são ventos, tempestades e furacões. Dependendo da situação, deixam pedaços nostálgicos de momentos vividos. Assim são meus sentimentos, totalmente revelados...

Rita Padoin

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O VENTO

O vento leve
O vento breve
O vento devastador.
Cria
Avalia
Reconhece.
Sois nosso tempo
Nossa espera
Nossa indecisão.
O vento que traz
O vento que leva
O vento que ameniza.

Rita Padoin

terça-feira, 5 de setembro de 2017

MEDO

Se tenho medo? Sim. Muito medo. Medo de sentir o que estou sentindo. Medo de ir além do que estou habituada. Medo de tomar decisões que me tiram da zona de conforto e que poderão acabar me machucando. Medo do que a vida me reserva. Ridículo isso? Sim. Muito. Sei de tudo isto. Mas, as vezes parece que esqueço. Aí me perguntam: E como estás habituada? De que zona de conforto estás falando? Não saberia responder. Dentro de mim, eu sei o que estou sentindo, agora descrever, é muito difícil. São sentimentos internos, íntimos, secretos, misteriosos, que acabo cultivando e não tem como não sentir. E o medo, é um deles. Não o alimento e sinto a sua presença constantemente, bem naquele momento em que preciso tomar uma decisão, ele chega de mansinho e bate no meu ombro.
Aí penso: puxa vida, e agora? Ele está bem atrás de mim esperando uma reação. Faço o quê? Qual decisão devo tomar? Qual caminho devo seguir? O que está me esperando lá fora? Quanta interrogação, não é verdade? Pois é, a vida é assim, cheia de mistérios, dúvidas, indecisões e muitas interrogações. O que seria desta vida sem estes pormenores? Com certeza sem graça. E como seres humanos que somos, tenho certeza absoluta que estaríamos aqui reclamando que a vida é morna, insonsa, sem glamour nenhum. Por que isto? Por uma série de circunstâncias que criamos e nos adaptamos conforme a nossa necessidade.
E a vida se apresenta muito diferente daquilo que imaginamos. Acabamos percebendo que aquele cavalo branco, não existe. Aquele príncipe encantado, só nos livros de contos de fadas. Aqueles inúmeros sonhos que imaginávamos que iriamos encontrar logo ali, não o encontramos. Nos deparamos apenas com os tropeços e as lutas. Se quisermos alcançá-los, teremos que vencer aqueles obstáculos que nem imaginávamos que existiam. Pois é, não nos informaram que a vida seria assim. Cheia de bifurcações, tropeços e lutas. Que cair, faz parte. Os tropeços, necessários. As lutas, servirão para o nosso crescimento e a nossa evolução como seres humanos que somos.
Por isto que o medo se instala. Por não sabermos lidar com a situação. Por não sabermos que a vida é apenas um jogo e este jogo poderá se tornar perigoso demais se não soubermos entendê-lo. Que o medo é apenas ilusão. Um estado afetivo suscitado pela consciência e nos sentimos fracos perante ele por não sabermos decifrá-lo.

Com o tempo, tudo se resolve. Crescemos e vamos percebendo que tudo depende apenas de nós. O que sentimos é ilusão da nossa vontade e que com o tempo ela desaparece, ficando apenas o real.
Rita Padoin

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A MORTE

A morte estava passando e viu uma casa com a janela aberta,
Aproximou-se e as cortinas balançaram com o vento.
Observou com o olhar frio, um corpo caído e instável na cama.
Entrou, se sentou e disse ao doente:
Vim te buscar.
O moribundo olhou para a morte e disse:
Podes me levar, já estou pronto.
A morte percebeu que ele não tinha medo.
Levantou-se e se foi.
O moribundo estático, o chamou:
Volte.
Por que não queres me levar?
Por que não tens medo e estás preparado, disse-lhe a morte.
Tens algo a fazer por aqui ainda.
Virei te buscar daqui há algum tempo.
Abismado com a decisão da morte
O moribundo se levantou e viu que estava bem melhor.
Olhou ao seu redor e percebeu que ainda tinha coisas para fazer
Antes de partir.
Rita Padoin
 


domingo, 9 de julho de 2017

JANELAS ABERTAS

Ele tentou de todas as formas seduzi-la. Não poupou esforços para isto.  Suas palavras pareciam janelas abertas convidando para que o sol entrasse e se apoderasse do ambiente. Assim, ela o descrevia. Apesar das inconstâncias, dos danos e das loucuras, era apaziguador toda aquela situação. Seu coração sempre se abria para os momentos, mesmo os inconstantes. 

A primavera sempre viveu dentro dela. Seus olhos pareciam flores desabrochando e seu sorriso a brisa de verão. Sempre fora feliz e colorida. Não tinha tempo para os dissabores e as tristezas. Apenas vivia o momento como se ele fosse único.

Ele a desconcertava na maioria das vezes. Distorcia assuntos, brincava com seus sentimentos e ela ficava sem saber o que dizer. Ele a descrevia como o mistério, a vida em pleno êxtase e ela apenas sorria sem dizer uma única palavra. Talvez, ele a procurasse, por entender que a vida dela era apenas a leveza do tempo ou um temporal em pleno deserto. Ela não demonstrava seus segredos. Era uma mulher misteriosa e ele tentava entrar no seu mundo de qualquer forma. Sempre uma enxurrada de palavras sem nexo e sem um entendimento, mas as horas os acompanhavam sem ao menos dar um adeus.

Ela e ele tinham um pacto sem saber. As horas ultrapassavam os limites e o tempo navegava em águas revoltas. Era um momento que nenhum dos dois entendia, porém continuavam a guerra como um jogo prazeroso. Competiam com as palavras e jogavam como peças de um tabuleiro invisível. Marcavam um tempo que deveria ser vagaroso, mas acabava sendo breve, naquele momento.

Era madrugada quando o jogo iniciava e terminava no início da manhã, quando o sol entrava e batia na sua janela. Seus raios quase a cegavam. O aroma da manhã enchia seus pulmões de felicidade. As janelas abertas como ela o descrevia, preenchia o vazio que muitas vezes teimava em se alojar.

Assim, eram os dias que passavam juntos. Misteriosos, sagazes e muitas vezes tendenciosos. Ela seguia sua vida normalmente e ele também...
Rita Padoin

JANELA LATERAL

Observo da janela lateral, uma senhora de cabelos brancos.
Caminha a passos lentos e custosos pela idade ou pela dificuldade
Do tempo que se arrasta anos e anos a fio.
Seu vestido azul floral, é quase arrastado pelo vento invernal.
Olhar atento, segue firme, mesmo que o vento quisesse impedi-la.
Sobre a calçada, pequenos redemoinhos se agitam.
A velha senhora para de tempo em tempo, se segura na parede
E aguarda o vento se acalmar.
Através do vidro vi o tempo passar, o relógio correr, o sino bater e
A vida sendo arrastada mesmo que não queira.
Assim, é o cenário de um teatro vivo.

Rita Padoin 

domingo, 2 de julho de 2017

A SOLIDÃO

A solidão invadiu os meus aposentos trazida junto com a brisa do final de tarde. Ao adentrar as cortinas balançaram como se fossem o próprio vento. Elas flutuaram leves como a alma de um poeta.

Ah! Solidão, como és silenciosa! Parece a própria morte. Não dormes, apenas observas. Teu silêncio é tão escuro quanto o breu da noite. Encosta-te em cada pilar, sentas em cada cadeira, deitas em cada cama, delicias-te com todos os lugares que encontras.

Sem fazer nenhum barulho sussurras nos meus ouvidos deixando meu corpo com a sensação de frio intenso. Buscas em cada canto da casa um abrigo para tua morada. Entras e nem perguntas se podes ficar.

Sinto medo quando te aproximas sem minha permissão. Não consigo te tocar. Quero algo solúvel, algo que tenha firmeza.

- O que queres neste momento? Apenas companhia? Se for apenas isso, entra e fica, faremos companhia uma a outra.
Rita Padoin