quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Sinais do Silêncio

Ele, também poderia se retratar – entrar em contato, dizer que a saudade consumiu os seus dias. Que o seu corpo sentiu a mesma intensidade que o meu. Dizer que tudo não passou de um mal-entendido, explicar as suas razões, de ter sumido, talvez deixar clara a situação.

 

Desmontar toda essa confusão e revelar o que se passa dentro do seu coração. Esses mal-entendidos poderiam ser esclarecidos. Eu poderia tentar entendê-lo. Mostrar que tudo o que se passou foi intenso, sublime. Mostrar que fui importante.

 

Entendo que talvez o sentimento seja apenas de minha parte. Mas então, porque há invasão em meus pensamentos? Invasão em meus dias ternos e serenos? Tudo vira uma revolução, uma guerra interior, quando, sem permissão, ele vem - sem ser convidado.

 

Há pendências batendo à porta. Esse estranho caminho que me conduz por encruzilhadas desconhecidas, me mantém em alerta.

 

Os sinais que a vida dá são claros. Dizem tudo o que eu preciso saber. Mostram caminhos.

 

Rita Padoin

domingo, 23 de novembro de 2025

Entre Frestas e Razões

De tempos em tempos, reciclo minhas energias – rego o jardim, rascunho versos, ouço músicas. Cada canto é uma mistura de sentimentos oblíquos. Não entendo os porquês, nem as razões. Não entendo nada. Nada mesmo. Ainda assim continuo a olhar, por entre as frestas da janela do tempo, para descobrir o obvio – aquilo que foi me oferecido nas entrelinhas. Recordo algumas coisas: outras nem sei por que estou aqui.

 

Minhas intenções são as melhores, mas não entende – ou finge que não entende. Há risco de se ferir com as próprias lutas e com as próprias mãos. Não consigo lidar com tudo isso. Será que entende? Tenho meus métodos, minhas razões, minhas atitudes. Gostaria de ser mais paciente, mais racional, mas é tão complicado. – tão fora da minha realidade.

 

Sinto que preciso me concentrar, encarar com mais naturalidade, aceitar exatamente do nosso jeito. Os mistérios existem para serem desvendados. Abrir portas e encarar a realidade nua e crua. Meus pés estão dormentes: andar sem saber se o caminho é o certo cansa. Seguir convicta de que estou certa também é arriscado. Arriscar ou caminhar devagar? Eis a questão.

 

Prefiro, pensar e repensar as razões...

 

Rita Padoin

terça-feira, 18 de novembro de 2025

51 anos depois: O retorno ao nosso ponto de partida

Em 1974, éramos quatro meninas rumo à escola — Rita Padoin, Vanilda Padoin, Eleamar de Rochi e Maria Onice Cechinel. Naquele belo dia, alguém que não recordamos, tirou uma foto enquanto esperávamos o ônibus, num lugar um pouco afastado de casa, onde nossos sonhos ainda eram pequenos, mas já nos acompanhavam silenciosamente.

O tempo passou… cinquenta e um anos se foram. Cada uma seguiu seu caminho, construiu sua vida, enfrentou obstáculos, guardou lembranças, cultivou saudades. E, ainda assim, algo invisível continuou nos unindo: aquele instante inocente congelado na fotografia de 1974.

Então, meio século depois, nós quatro voltamos ao mesmo lugar. Paramos exatamente onde antes éramos apenas meninas com cadernos e esperança nos olhos. E ali, no mesmo ponto, tiramos outra foto — agora mulheres, maduras, cheias de histórias, vitórias e cicatrizes.

O cenário não era mais o mesmo, e nós também não. Mas havia algo que permanecia intacto: o laço que a vida nunca conseguiu desatar.

A nova foto não registra apenas quatro mulheres; registra o tempo que passou, o caminho que percorremos e a certeza de que algumas amizades atravessam décadas e sobrevivem a tudo.

Porque, no fundo, voltar ao mesmo lugar depois de tantos anos é um jeito bonito de agradecer à vida pela oportunidade de reencontrar quem éramos — e quem ainda somos — quando estamos juntas.

Rita Padoin
Escritora

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terça-feira, 11 de novembro de 2025

Carta sem endereço

Escrevi em linhas abertas o meu sentimento. Mostrei em palavras o amor que sinto. Escolhi um papel delicado, adornado com borboletas – símbolo de despertar, de alma e de espírito. Minhas mãos tremiam enquanto eu derramava sobre a folha todo meu afeto, meu carinho, minhas intenções.

 

A carta ficou pronta.

O problema é o endereço.

Não sei onde ele mora.

 

Talvez more nas lacunas escondidas do tempo, em algum canto perdido entre o momento e espera. Talvez viva dentro do meu peito, oculto nas entrelinhas do que ainda não foi dito.

 

Dobrei o papel com cuidado, coloquei-o em um envelope e guardei. Quem sabe, um dia, ele entre em contato – e eu possa entregar pessoalmente. Cartas assim, sem data, podem esperar em uma gaveta. E, se não chegar ao destinatário, ao menos aliviam o peso da alma que ama silenciosamente.

 

Rita Padoin

Escritora 

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Refúgio nas Linhas

Eu poderia me declarar, mas o medo de ser rejeitada me faz recuar. Não nasci para o desprezo – nasci para ser aceita, amada e adorada. São as minhas exigências como mulher. Trago em mim a convicção de que a mulher nasceu para ser amada, admirada e idolatrada. É a minha essência: romântica, inteira e sonhadora. Prefiro recolher-me em mim mesma do que receber um “não” ou um “talvez” sem coragem. Há dentro de mim um lugar sagrado, reservado ao amor e o amor, quando chega, precisa ser inteiro.

 

Eu poderia ligar, mandar mensagens, áudios – qualquer outra coisa revelando o que sinto. Poderia fazer surpresas, enviar músicas que tocam meu coração e minha alma, músicas que talvez tocassem a dele também. Eu poderia escrever uma carta manuscrita. Cartas a próprio punho são tão românticas –revelam a presença íntima de quem escreve, o perfume do papel, o calor das mãos que desenharam palavras amorosas. É como se o coração encontrasse refúgio nas linhas.

 

Há tantas formas de se declarar. No amor são infinitas as possiblidades. Eu saberia como fazê-lo, mas e se...e se desse errado? E se ele apenas achasse graça da minha declaração? E se não entendesse minha intenção? E se não sentisse o mesmo que eu? Esses “e se” ficam pipocando na minha cabeça e não me deixam seguir adiante. Deixam-me em polvorosa, só de imaginar-me tentando me declarar – e recebendo um “não” como resposta.

 

Preciso tratar esse meu ferimento interno. Cuidar da autoestima que, talvez, ande em baixa. Não sei responder às perguntas que me faço diariamente sobre esse medo da rejeição. Já pensei, repensei, tentei encarar o que pode ter acontecido num passado não tão distante. Tentei relembrar fatos que me deixaram assim, mas nada vem à mente. Talvez, eu precise reorganizar meu mundo interno, entender que é coisa da minha cabeça, que esse medo não existe de verdade. Talvez essa rejeição que sinto seja apenas fruto da minha imaginação. Talvez seja só isto. Talvez.  

 

Talvez eu escreva uma carta ou mande uma mensagem me declarando. Amar é se arriscar. É colocar o coração na beira do precipício. E se ele dizer não, aceitarei, pois terei dito o que sinto – e isso, por si só, já é uma forma de liberdade.

 

Rita Padoin

Escritora

domingo, 2 de novembro de 2025

O Amor

Um, dois, três toques.

Levantei-me para atender.

Quem bate na minha porta tão cedo!

Abri-a imaginando ser alguém conhecido

Para minha surpresa,

Era o amor, sorridente e confiante

Quando me deparei com ele, recuei.

Tentei fechar a porta

Mas, o amor me confrontou.

Sua força foi muito maior que

A minha vontade de o afastar

Cansada de lutar, deixei a porta escancarada.

O amor entrou, me abraçou forte

E com aquela voz gentil me falou:

- Eu sou a base de tudo. Sem mim não és ninguém.

O amor é o alicerce de toda a construção

Tanto do mundo, quanto do ser humano.

Aquelas palavras me calaram

E como uma flecha certeira

Entendi que esse amor é diferente daquele

Que eu imaginava.

Esse amor é o da construção do mundo e do Ser humano.

 

Rita Padoin